O Brasil está envelhecendo e essa transformação já começa a redesenhar diferentes setores da economia, especialmente o mercado imobiliário. O aumento da expectativa de vida, aliado à queda da taxa de fecundidade, alterou o perfil da população brasileira e criou uma nova demanda: moradias pensadas para pessoas que envelhecem com autonomia, independência e novos hábitos de consumo.
De acordo com a arquiteta e designer de interiores Thais Morais, o mercado imobiliário do futuro não será apenas sobre estética. “Será sobre projetar casas capazes de acompanhar a longevidade, a autonomia e a qualidade de vida das pessoas”, destacou.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que 29% da população brasileira já tem mais de 50 anos, percentual que deve alcançar 40% até 2044. Em sentido oposto, a taxa de fecundidade caiu de 6,28 filhos por mulher em 1960 para 1,55 atualmente, índice abaixo do nível necessário para reposição populacional, estimado em 2,1 filhos por mulher.
O envelhecimento ocorre em ritmo acelerado. Segundo o Censo Demográfico de 2022, o número de idosos cresceu 57,4% em apenas 12 anos. Se em 1980 eles representavam 4% da população brasileira, hoje já correspondem a 10,9%, com projeções indicando que, até 2030, a população idosa ultrapassará a de jovens no país.
Essa mudança demográfica impacta diretamente o comportamento de consumo e a forma como as pessoas desejam viver. “Hoje, não basta projetar imóveis apenas estéticamente bonitos. “É necessário criar espaços preparados para acompanhar as diferentes fases da vida com conforto, autonomia e segurança”, explicou a especialista.
“Vejo um movimento cada vez mais forte em direção a projetos funcionais, acessíveis e inteligentes. A acessibilidade deixa de ser algo exclusivamente técnico e passa a ser integrada ao design de forma natural e humanizada”, detalhou.
Hoje, quase 19% dos domicílios brasileiros possuem apenas um morador, percentual superior aos 12,2% registrados em 2010. Entre essas moradias unipessoais, 28,7% são ocupadas por pessoas com 60 anos ou mais, o equivalente a aproximadamente 5,6 milhões de idosos vivendo sozinhos.
O novo perfil populacional impulsiona uma transformação também no setor imobiliário. Tradicionalmente voltadas a modelos assistenciais ou instituições de longa permanência, as soluções habitacionais para pessoas maduras passam a enfrentar novos desafios.
Existe hoje um público estimado em cerca de 54 milhões de brasileiros entre 50 e 80 anos que não busca modelos institucionalizados, mas empreendimentos capazes de reunir conforto, autonomia, convivência social, segurança e serviços integrados ao cotidiano.
O comportamento dessa população reforça a tendência: sete em cada dez pessoas acima de 75 anos preferem envelhecer na própria casa, conceito conhecido como Aging in Place. A preferência revela uma busca crescente por espaços que permitam independência e qualidade de vida sem abrir mão da praticidade.
Ao mesmo tempo, a chamada economia prateada se consolida como uma das principais forças de consumo do país. Atualmente, esse mercado movimenta cerca de R$ 1,8 trilhão por ano (valor equivalente a 24% de todo o consumo privado brasileiro). A projeção é que esse montante ultrapasse R$ 3,8 trilhões até 2044.
Parte significativa desse investimento passa pela moradia. Entre 26% e 30% do orçamento mensal da população madura é destinado à habitação, o que leva incorporadoras e empresas do setor a repensarem projetos.A tendência é que os imóveis se tornem mais adaptáveis, com plantas flexíveis, integração entre os espaços, iluminação adequada e confortável, conforto acústico, automação e soluções que favoreçam a mobilidade e o bem estar, explicou a arquiteta.
“O futuro da arquitetura e do Design está cada vez mais ligado à longevidade. Projetar para envelhecer bem é, acima de tudo, projetar com um olhar mais humano, sensível e funcional sobre a forma como as pessoas vivem e desejam viver ao longo dos anos”, concluiu.
Entre os modelos que ganham espaço estão condomínios para idosos independentes, cohousings, colivings voltados ao público 50+ e soluções inspiradas no conceito Living as a Service (LaaS), que transforma a moradia em uma plataforma contínua de serviços, unindo arquitetura acessível, hospitalidade, tecnologia e bem-estar.